Antes de mais permite-me que te trate por tu, se estás aqui é porque temos interesses em comum.
A minha intenção ao criar este blog não é propriamente a de insultar a verdade dos outros mas a de transcrever a minha. Verdades há muitas e, na verdade, ninguém é dono dela, por isso é que a verdade nos liberta, porque é nossa e é unica e é aquilo que nós quisermos dentro da nossa propria lógica de pensamento.
Deus e outras mentiras, porque na realidade vivemos numa completa ignorância sobre o que nos rodeia, sobre aquilo que realmente importa e num modelo que nos foi impingido sem termos sequer a hipotese de questionar (quem questiona é louco normalmente - acredita que sei do que falo).
Quando comecei a ter consciencia de mim proprio dei conta de que era muito diferente das pessoas que me rodeiam... achava estranho que não se questionassem, que não pensassem no mundo que as rodeia e que não tovessem dúvidas. Ainda hoje sou assim.
Fazia as mais parvas perguntas do tipo "porque é que o ananás se chama ananás" (hoje há quem diga que esse tipo de questão é sintoma de alguma patologia, especialmente quando se repete tantas vezes, como era o meu caso). Eu queria saber tudo (e seu eu pudesse garanto que aprendia tudo o mais possível), queria saber a origem das coisas e saber a razão pela qual o mundo era assim como ele é, como ele se nos apresenta.
À minha pergunta normalmente eu obtinha a resposta "porque é que tu te chamas nuno?" e olhavam-me como se eu fosse um grande idiota, atrasado mental que simplesmente não sabia assimilar a informação que lhe passavam sem a questionar. Nunca consegui explicar porque queria saber porque é que o ananás se chama assim (não tinha o nível de linguagem que tinham os mais velhos).
Da mesma forma questionava os meus pais sobre os castigos que me davam (vez sim, vez não, por razões semelhantes). Ora um dia eu não comia, porque não gostava do jantar e ficava de castigo, ora noutro não precisava sequer de fazer birra porque a boa disposição pairava lá por casa e passava directamente para a sobremesa (gelatina ou iogurte ou fruta). Eu achava aquilo uma incongruência e questionava e a resposta era um simples "porque eu é que mando aqui".
Essas respostas incomodavam-me até ao tutano porque sempre fui muito democrático e adepto de discutir as decisões com todos e sempre gostei que me explicassem a mim as razões do que quer que fosse que me estivessem a dizer. Eu queria aprender e entender a lógica de viver aqui, na terra, neste planeta, nesta sociedade.
Assim também conheci Deus e a história de Jesus e não conheci mais aprofundadamente nenhuma história de outro santo qualquer porque os meus pais deixaram de ser católicos quando eu tinha 5 anos. Chegámos um dia a casa depois de uma missa e os meus pais, que apesar de tudo eram pessoas que se permitiam questionar-se à frente dos filhos (todos temos dúvidas e os nossos pais não serão certamente diferentes) comentaram que não concordavam com o que se estava a passar na missa. O Padre estava a apelar ao voto no PS que apesar de ser o partido do qual a minha mãe é ferranha simpatizante, não lhe era possivel concordar com tamanha manipulação. O 25 de Abril tinha acontecido para que cada um tivesse a liberdade de escolher e de pensar qual era a ideologia política que seria melhor em determinada altura do seu país. Não seria certamente um padre a escolher por nós, para isso existia a campanha eleitoral e os programas dos partidos.
Fiquei revoltado e com vontade de ter um téte-a-téte com o padre para lhe explicar que não se pode tentar usar do poder que se tem sobre as pessoas para as manipular. Tinha contudo a noção de que era criançae que ninguém me ia ouvir, por isso calei-me, mas concordei com os meus pais e nunca mais fomos à missa. No entanto os meus pais sempre me disseram que se eu quisesse enveredar pelos ensinamentos da igreja católica eu era livre de o fazer e até me levariam à missa ou à catequese quando fosse a altura. Não quis.
Na verdade eu tinha Deus presente em mim. Tinha 5 anos e falava com ele em pensamento (sabia que ele me ouvia), as vezes quando o pensamento era mais rápido do que eu a pensar (não sei se já te aconteceu estares a pensar mais rápidamente do que a propria linguagem) eu apenas dizia "tu percebeste né?"
Desde que me conheço que conheço também Deus, mas por incrivel que pareça os rituais sempre me pareceram estranhos e até ridiculos, peço desculpa se ofendo. Para mim bastava-me falar com ele que ele ouvia e o mais engraçado é que sentia, muito embora não obtivesse uma resposta verbalizada, sentia-o alí a ouvir-me. Talvez Deus tenha sido o meu amigo imaginário de infância (muito embora nunca o tenha visto), mas ele estava lá.
Sentia que as pessoas estavam todas enganadas, para mim Deus era MESMO omnipresente e não fazia sentido nenhum fazer um ritual, especialmente porque a maior parte das pessoas que participavam desse ritual no momento seguinte estavam a falar mal umas das outras, estavam alí só para serem vistas e quem não participasse do ritual não era boa pessoa. Isso incomodava-me muito. Fazia-me sentir pouco livre.
Além do mais, aquele Deus que me apresentavam na igreja era tudo menos amigo, era tudo menos um pai perfeito. Caramba, se é perfeito não castiga, não se chateia e muito menos sente ciumes. O Deus que eu conhecia era tão fixe! Estava sempre lá para mim, ouvia-me e o mais engraçado é que me ajudava a reflectir e a ter noção das minhas acções. Através das infindáveis conversas (na verdade monólogos - mas as vezes a resposta vem de onde menos se espera) eu fui capaz de ver onde estava errado. Não admira portanto que os meus pais tenham tido muito poucas razões de queixa de mim, eu era uma criança calma e poderada, só não reagia muito bem à "autoridade pela autoridade". Isso revoltava-me. De resto era bem comportado, muito bem comportado, não por medo, mas por respeito e porque queria ser muito boa pessoa.
Nunca mais fui à igreja enquanto até aos meus 7 anos.
(continua)
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